sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

intro

Durante muito tempo esperei essa viagem, esperei São Paulo. A cidade que, hoje eu sei, realmente não pára. Eu estava indo pronta para absorver o máximo que conseguisse. Seria uma semana intensa, eu tinha certeza.

Aqui estão registradas, bem em forma de diário - com o perdão talvez do coloquialismo ou do nível de pessoalidade -, as impressões que tive a cada dia na grande cidade cinza da garoa. Procuro expressar em palavras e imagens a forma como vi e senti cada obra arquitetônica, bem como a dinâmica e a vida da metrópole que consegui captar. Sei que ainda falta muuuito. Mas já foi um primeiro (ou segundo) passo.



sexta-feira 27/11


Horas de ônibus, mp3 no aleatório. Os lugares lá do fundo eram desconfortáveis. O mau humor e o sono tomavam conta de mim. Mas logo nós chegaríam
os. Café da manhã na estrada. Encontro com colegas que estavam em outro ônibus. Então, estávamos em Sampa. Era apenas segunda vez que eu entrava nessa cidade, e tive a mesma impressão: cinza, cinza, tudo cinza! Chegamos cedo. Outro café da manhã. Baden baden. Ok, vamos ao SESC Pompéia.


sesc pompéia - lina bo.

As fotos deixam muito a desejar, só estando lá pra saber como é. E é tão grande... você entra na rua interna e anda, anda e ainda tem coisa pra ver. Visitamos os antigos galpões, hoje lugares transformados, espaços sedentos por abrigar exposições e atividades culturais em geral, com altos pés-direitos, luz, mobiliário pensado detalhadamente; vimos o teatro de dois palcos em um, as famosas cadeiras de Lina, passamos vontade de assistir um show lá; visitamos as torres – de circulação e área esportiva, andamos naquelas rampas, ah, as rampas! subimos de elevador, descemos de escada; almoçamos no SESC ainda; fomos embora maravilhados. Tem gente por todo o lado. São as pessoas realmente fazendo uso do espaço. Idosos, crianças, gente lendo, jogando, correndo. É um lugar que dá certo, sem dúvidas. Apaixono-me outra vez. Ah, Dona Lina! Nada melhor do que essa velha fábrica de tambores ter ido parar em suas mãos. Não é preciso tanta delicadeza pra criar um espaço aconchegante. É preciso atenção ao detalhe, sensibilidade. É preciso parar e observar, se inserir no lugar, ver como as pessoas o utilizam de fato, e a partir dessa essência, usar o poder de ser arquiteto. É o que é possível ver ali, é o que Lina nos ensina.



fau/usp - artigas.

Entramos na cidade universitária e.. meu deus! Não acaba mais, é gigante. Até que descemos do ônibus e foi possível ver o prédio da FAU, como é legal! A pressa de entrar logo, ver todo aquele espaço em concreto e vidro por dentro, sentir como é estar em uma escola com tanta liberdade visual e espacial me impediram de registrar em fotos essa entrada. A vontade era sair correndo por todo o edifício, enfiar o nariz em cada buraquinho, ver todos os espaços. Mas isso teve que esperar um pouco. A princípio, fui feliz em sentar naquele vazio. Aliás, essa é uma das minhas cenas favoritas da viagem: a turma sentada lá, balançando os pezinhos, e olhando por todos os lados, investigando o edifício. Logo após, vieram nos falar dos problemas na cobertura. Que pena. Que pena. Tanta coisa que aprendemos que deu errado. Que está dando errado. Mas o prédio não perde os créditos. Aquela cobertura hipnotiza (com estalactites e tudo). O sono pesou, e a concentração começou a falhar. Depois de breves cochilos involuntários foi a tão esperada hora de circular pela FAU. Invejinha. Vontade de ter um espaço livre assim. A fluidez dos espaços, a abertura, a luz. O prédio carregado de manifestações dos alunos em cada parede. E nós nem temos um canteiro de modelos experimentais. Aprender Arquitetura num lugar pensado para tal, um lugar como aquele, deve ser bem mais divertido. Aposto como seríamos felizes ali.


Ainda na cidade universitária, fomos até a feira do livro da USP. UAU, que vontade de deixar as roupas em SP pra ter mais espaço pra levar livros na mala. Depois de gastar uma grana que sabe-se lá de onde vai sair, fomos para o hotel.
Cansaço. Mas ainda tinha mais. No Brasil, na rua Augusta.

sábado 28/11

casinha do artigas.

Pra começar, nem foi possível entrarmos todos de uma vez. Também pudera, uma casa de dimensões tão pequenas. E tão grande importância. Ela é uma gracinha. Em 45º no terreno, de cara já percebemos que ela é diferente. A casinha é tão bem resolvida que nos faz pensar “por que temos tanta mania de superdimensionar, de achar que pouco espaço é sinônimo de espaço ruim?”. A casa acontece em torno de uma única parede hidráulica, e tem todos os ambientes interligados, sendo possível dar a volta completa em seu interior. O espaço, hoje cheio de plantas, é sinônimo de aconchego. Pra infelicidade geral da nação, não foi possível visitar a residência vizinha – irmã moderna da casinha, também de Artigas.



Próxima parada: o primeiro exemplar de residência modernista em nosso país tropical.


casa modernista - gregori warchavchik.

É a típica construção que eu via em livros, aulas, e sempre achei que fosse ficar por isso mesmo. Não imaginei ir lá tão cedo. Mas felizmente aconteceu. E confesso, ela é maior do que eu imaginei. Ok, talvez nem seja tão grande assim, mas depois de sair da casinha do Artigas, me pareceu gigante. Sinto que me perdi pelos cômodos. Vi coisas que não entendi, que atiçaram a curiosidade. Passagem secreta no banheiro? Piscina? Passear por ali foi uma verdadeira investigação, novamente ficou claro que ver fotos e ler mil textos nunca vão se igualar a sentir a arquitetura pessoalmente. Em cada painel pelo jardim, novas descobertas. Alterações na casa. O cuidado do arquiteto com todo o projeto, incluindo mobiliário, esquadrias, etc. Essa casa representa a racionalidade e funcionalidade modernistas, livre de ornamentações desnecessárias, adaptadas a situação brasileira da época (anos 20), tanto na questão de materiais, como clima e tradições.



Almoço no Liberdade. Estou em outro país? Essa cidade realmente é poly-muita-coisa (com o perdão pelo trocadilho). Polivalente, multicultural, várias caras.
Então, mais uma primeira vez: metrô! É rápido, prático; gostei.


centro cultural são paulo -
erico prado lopes e luis benedito telles -
exposição post-it city.

Encontro dificuldades em escrever sobre o Centro Cultural. Incrível como sua entrada não consta em nenhum arquivo de minha memória. Parece que, de repente, eu já estava lá dentro. Ele some no terreno. Não faz muito sentido, é um espaço tão amplo. Como não estava incluso no meu roteiro mental de São Paulo? Enfim, o lugar me ganhou. Difícil foi decidir o que ver primeiro. O lugar ou a exposição? Post-it primeiro – painéis, vídeos e fotografias; prédio depois – aço, o concreto e o vidro novamente. As rampas me pareceram familiar. Será que é esse o edifício que uma professora citou/mostrou no primeiro atelier de projeto? O lugar tem vida, isso é fato. Pra cada lado que você olha, vê uma atividade diferente. Gente sentada de bobeira, vendo exposições, comendo, lendo. Depois de uma tarde inteira lá, fiz o máximo que consegui, dividi mentalmente o lugar em dois: o grande salão com as rampas divertidas, e todas as exposições; e o teto verde, que é uma praça no meio de tanta verticalização e cinza, e com uma puta vista.




E a noite foi de glória.

domingo 29/11


O dia começou atrasado. Check-out na São João e hora marcada na Sala São Paulo.



sala são paulo, na estação júlio prestes – cristiano stockler das neves e nelson dupré.

Quem esperou afinal fomos nós. Mas valeu a pena. A Estação Júlio Prestes definitivamente é um lugar que chama a atenção. Me pergunto como eu já tinha estado ali pertinho, na Luz, e não conhecia ainda esse lugar. Nesse edifício, no estilo Luís XVI, funcionava a antiga estação de trens da Estrada de Ferro Sorocabana – principal fluxo de escoamento do café no início do século XX –, e hoje é a sede da OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Muita coisa pode ser dita sobre essa obra, mas me contento em dizer que é incrível. É o casamento perfeito entre o velho e o novo, entre o mais alto conhecimento tecnológico e um edifício que representa parte da história do país (ciclo do café). O restauro e adaptação para sala de concertos, realizados no final dos anos 90, é de deixar qualquer um boquiaberto. A moça da visita orientada que o diga, aposto como ela já viu a cara de encanto de muita gente por lá. A gente vai entrando e olhando cada coisa em mármore e granito, o piso, as paredes, o teto. AH, o teto da Sala! Quando se olha pra ele, não se vê mais nada. É bom guardar pro final então. A acústica do local parece coisa de filme de ficção. Estando lá dentro, é fácil se esquecer que estamos bem ao lado de uma barulhenta estação de trem. É tudo perfeito. Cada textura, cada detalhe, cada dimensão. O tal teto sobe e desce de acordo com o tipo de música que será executada ali, atingindo um pé-direito máximo de 24 metros. O piano se esconde embaixo do palco. As poltronas possuem cor e material que, fechadas, imitam a vibração do corpo humano, para o som reverberar corretamente estando a sala cheia ou vazia. A impressão que se tem é que TUDO foi pensado, planejado. Dessa visita, a lição que fica é: projeto, em cada detalhe. É necessário prever, estudar, se dedicar, pesquisar tecnologias. E se houver uma boa verba pra bancar a obra, bom também!



parque da juventude – aflalo e gasperini & rosa kliass.

Em nossas rodadas pela capital paulista, visitamos vários lugares que passaram por revitalização, reformas, reutilizações, re-qualquer-coisa. Enfim, novos usos dados para diferentes locais. Como exemplos podemos citar a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado, o SESC Pompéia, o Parque Modernista, etc. Porém, de todos o que mais me encantou foi o Parque da Juventude, instalado onde funcionava o presídio Carandiru, desativado em 2002. Lindo como o que era um centro de detenção se transformou em um local tão delícia. O paisagismo no parque central, bem trabalhado por Kliass, nos convida a passear pela mata nativa. Há ainda outras duas áreas: a institucional e esportiva. Enquanto passávamos por essa última, já com muita fome, uma cena nos chamou a atenção: crianças brincavam de escorrega nas pistas de skate molhadas pela chuva, e ainda declaram felizes que “até parecia piscina”. Mais uma vez pessoas se apropriando do lugar, dando uso até não-planejado, adotando o espaço. Na parte das edificações onde funcionava o presídio propriamente dito, colegas esticavam os braços para dentro das pequenas janelas na tentativa de capturar o lugar onde tantos ficaram trancados. Muita coisa por ali está diferente, mas nessas horas, meu estômago não me permitia mais prestar tanta atenção.


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pesquisa posterior


Durante o período de
desativação do Carandiru, o Governo do Estado, juntamente com o IAB/SP, promoveu um concurso público para escolha do projeto arquitetônico para construção de um parque cultural no local. Essa medida foi considerada um ato simbólico no sentido de livrar o local do estigma de violência. O vencedor foi o grupo do escritório do arquiteto Gian Carlo Gasperini, em conjunto com a arquiteta-paisagista Rosa Grena Kliass, responsável pelo desenvolvimento da proposta paisagística para todo o local. O edital já previa a manutenção parcial de construções, como uma forma de preservar a memória do lugar, de certa forma já resguardada no filme de Hector Babenco. Contudo, no longo e desgastante processo do concurso à contratação, decidiu-se que grande parte da área prisional não seria desativada. Quando o governo estadual finalmente formalizou a contratação do projeto, foi necessário alterar o projeto, devido à redução da área do parque para 240 mil metros quadrados.


O projeto foi dividido em três fases, implantadas de leste a oeste. Segundo Rosa Kliass, “é importante lembrar que os projetos de arquitetura e paisagismo tiveram uma interação muito grande”. As duas primeiras etapas de obras consistiram basicamente de paisagismo, com alguns complementos de edificações. A terceira etapa foi principalmente intervenções nos edifícios da antiga Casa de Detenção, sendo que, nessa fase, a arquitetura paisagística apresenta um papel secundário.

A primeira fase, o parque Esportivo, ocupa 35 mil metros quadrados. Ele está situado no extremo leste da gleba, onde antes ficavam o Hospital Penitenciário e um bota-fora. Hoje o lugar conta com dez quadras poliesportivas, pista de skate, área para vestiário, sanitários e lanchonete. Painéis metálicos, chamados por Kliass de biombos, separam as quadras da alameda, formando interessante desenho geométrico.
Para trafegar por esses locais de recreação foi implantada uma alameda central, pavimentada com piso de solo-cimento – que, diferentemente do asfalto, tem aparência mais natural e ajuda na absorção do calor, contribuindo para a formação de uma ilha de temperaturas mais amenas – e arborizada com guapuruvus, paus-brasis e jequitibás-rosas , interligando todo o complexo. Os demais passeios receberam cobertura com pedriscos.

A segunda parte executada, o parque Central, colocou à disposição da cidade uma área de 90 mil metros quadrados, planejada como espaço de retiro, cuja topografia redesenhada oferece ainda diferentes perspectivas de contemplação do verde e do skyline da cidade. A formação de um pequeno morro rompeu a planicidade da área, situada na várzea do córrego Carajás, afluente do rio Tietê. Ele foi concebido como uma forma de absorver resíduos da demolição dos prédios da Casa de Detenção. Entretanto, como o entulho teve outro uso, foi necessário adquirir terra para executar esse morro.
Nossa proposta era criar um oásis urbano, onde os visitantes pudessem sentar à sombra das árvores para ler um livro ou descansar, diz o arquiteto José Luiz Brenna, co-autor do paisagismo. Essa intenção justifica a ausência de infra-estrutura para atividades físicas no parque Central. Os únicos equipamentos existentes ali são os bancos de concreto com encosto de madeira e os cestos de lixo em aço inoxidável.

Duas porções verdes preexistentes na área foram tratadas. A primeira delas é á
rea de preservação permanente, de 16 mil metros quadrados, formada basicamente por eucalipto de reflorestamento e espécies da mata atlântica. Esse agrupamento é cortado por trilha para caminhadas. A menor está no miolo da gleba. Ali existe a estrutura de um presídio, cujas obras, em estágio inicial, foram abandonadas em 1993, após o massacre de 111 presos da Casa de Detenção. Preservada como referencial histórico, a estrutura está envolvida por trepadeira e um conjunto de tipuanas que surgiu naturalmente no local, criando uma zona sombreada e com aspecto de ruína. Para tirar partido dessas condições, possibilitando a contemplação, o espaço ganhou passarela de madeira e o reforço de trepadeiras e plantio de forrações. Outro acréscimo do paisagismo são três escadas com estrutura de aço corten e degraus vazados de madeira. Elas dão acesso ao passadiço de 300 metros de extensão, a sete metros de altura, de onde se tem interessantes pontos de vista do conjunto. Essa muralha de quase um metro de largura foi construída para servir como posto de vigilância do edifício prisional cujas obras foram abandonadas.

A terceira etapa do programa, iniciada em setembro de 2005, envolve a reciclagem dos pavilhões 4 e 7 (que faziam parte do antigo conjunto prisional), transformando-os em locais para atividades educacionais. Idênticos, os dois edifícios possuem cerca de 6 mil metros quadrados, distribuídos em térreo e mais quatro andares. Um deles abrigará, no primeiro andar, o Centro de Inclusão Digital / Programa Acessa São Paulo, que coloca à disposição da população computadores com acesso gratuito à Internet e divulgação multimídia. Nos demais andares funcionarão salas de aulas de uma escola técnica do Centro Paula Souza. No outro funcionarão o Instituto de Promoção da Saúde (centro de integração, conscientização e divulgação de terapias com base na medicina holística, voltado para a formação de profissionais e workshops com adolescentes) e o Centro de Cultura, onde haverá atividades de dança, música, artes cênicas e restauro.

Referências

Rosa Grena Kliass: Primeira etapa do parque da Juventude, São Paulo-SP. SERAPIÃO, Fernando. Publicada originalmente em PROJETODESIGN. Edição 291 Maio de 2004. Disponível em: http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/rosa-grena-kliass-primeira-etapa-31-05-2004.html

Rosa Grena Kliass Arquitetura Paisagística: Segunda etapa do Parque da Juventude, São Paulo-SP. CORBIOLI, Nanci. Publicada originalmente em PROJETO DESIGN. Edição 299 Janeiro de 2005. Disponível em: http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/rosa-grena-kliass-arquitetura-paisagistica-segunda-etapa-20-01-2005.html

Aflalo & Gasperini Arquitetos: Parque da Juventude. FINESTRA. Edição 46 Setembro de 2006. Disponível em: http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/aflalo-amp-gasperini-arquitetos-parque-da-17-10-2006.html


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Fomos ao novo hotel na Consolação fazer check-in, almoçamos por ali na Paulista e corremos para o Teatro Oficina.



teatro oficina – lina bo e edson elito.

Teatro Oficina me era familiar de aulas por aí também. Nesse eu já havia decidido: um dia eu vou lá, e não demora. Não deu outra. Pensar em seis horas seguidas de peça, depois de andar tanto, não parecia uma ideia muito agradável. Contudo, foi uma das programações mais animadas. De todos os lugares visitados, esse é o mais impossível de se “conhecer” através de fotos. É melhor nem tentar. Só entrando lá, sentando ao lado do Zé Celso (mesmo sem saber que era ele a princípio), e dançando junto com os atores pra saber, pra sentir. A apresentação e a arquitetura são uma coisa só. O espetáculo não acontece só na rua-palco. De repente tem algum ator voando por cima de você. Pulando em você. Te mordendo. De repente, já escureceu, pelas altas janelas é possível ver a lua, o céu, a árvore, um ator na árvore. Todo mundo caiu no samba e se divertiu. Obrigada Zé Celso, obrigada Lina.

segunda-feira 30/11




centro de são paulo.

Esse foi o dia de passear pelo centro da cidade. Aah! Nada como circular a pé para sentir a cidade, parando de tempos em tempos para discutir e observar. Dentre os edifícios que a todo instante atraem nossa atenção, convém destacar alguns.


edifício copan – oscar niemeyer
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É impossível não perceber o COPAN. Ele se destaca na paisagem paulistana com seus 140 metros de altura e desenho curvilíneo. Sua escala impressiona, nos faz sentir pequenos. Sua forma é justificada com a iluminação e ventilação naturais adequadas, aliadas aos brises. Com mais de 5000 moradores, o edifício é uma cidade disposta em 32 andares. Os habitantes têm perfis diferentes e ocupam 1160 apartamentos de vários tipos: quitinete, um, dois e três dormitórios. Tivemos a oportunidade de conhecer dois deles. No térreo, várias lojas. Na cobertura... uma vista foda da cidade. As imagens, nesse caso, conseguem explicar melhor a sensação de estar lá no alto.


















sede do iab/sp –

O edifício, projetado por arquitetos modernos que conquistaram as primeiras colocações em concurso realizado pelo IAB-SP na década de 40 - inclusive o escritório de Rino Levi -, está muito degradado. Ainda assim, seu valor arquitetônico é notório, com tombamento datado de 2002. Há um projeto de restauração em andamento, dirigido por Paulo Mendes, ao qual fomos apresentados em nossa visita. O IAB não ocupa todo o prédio, havendo também escritórios de arquitetura e um anfiteatro, que também tivemos oportunidade de conhecer. A esperança que ficou é que as próximas turmas que viajarem a São Paulo encontrem o edifício em melhores condições.


Vimos ainda o edifício Itália, um dos pioneiros a atingir tão grande altitude; o edifício Eiffel, mais um exemplar de Niemeyer na cidade da garoa, dessa vez com um desenho reto e em ângulos; e o Esther, de Vital Brasil, considerado primeiro edifício com traços modernos em São Paulo. Esse último em péssimo estado de conservação.



E é cada um que a gente vê pelas ruas...



Depois de muito andar, almoçamos no mercado. Não gosto de mercadões, o cheiro me enjoa. Mas dessa vez entramos por uma portinha legal, não passamos perto de peixes e carnes fedorentas e subimos direto. O sanduíche estava gostoso. Bom para aguentar o resto do dia andando ainda. A tarde foi a vez da Paulista. -
Depois fomos ao CineSESC assistir “Bill – a visão do mestre”.

Até que, uma hora o corpo cansa, e é necessário perder algumas horas dormindo.


terça-feira 01/12


O dia começou bem. O café foi a caminho do MASP, encontramos a turma logo após já por lá, esperando o museu abrir. Não era primeira vez que eu ia lá, mas era a primeira que eu entraria no prédio.


masp – lina bo.

Lembro de março de 2009, na primeira vez que eu estive sob aquele vão gigante (30m x 70m, com 8m de altura). Chovia, e eu até tremia de ansiedade. Talvez fosse a primeira obra muito presente em minha vida acadêmica que eu conheceria pessoalmente. O ônibus estava estacionado lá embaixo, mas os 13 metros de desnível, bem como a chuva, mal constam em minha memória.
Dessa vez, no fim do ano, a ansiedade estava em um nível um pouco inferior. Eu já havia subido e descido a Paulista várias vezes, já tinha me deliciado de olhar o MASP. Aquela avenida definitivamente não seria a mesma sem ele. Sempre fico em dúvida sobre qual adjetivo usar pra descrevê-lo: leve ou pesado. Talvez um "pesado que flutua" seja mais adequado. É encantador como a Dona B.B. conseguiu tal nível de continuidade urbana visual e espacial, e como trabalhou bem com os poucos materiais que foram utilizados na obra (basicamente concreto e vidro). Então, o relógio marcou 10 horas, e pudemos entrar. A turma se dispersou lá dentro para ver as exposições de fotografias, pinturas e esculturas. Bateu aquela vontadinha de conseguir ver a cidade estando lá dentro, conforme os planos originais da arquiteta. Pela primeira vez desci e subi pela “rampa-escada”, que eu conhecia só por desenhos. Fiquei olhando o teto do último pavimento e tudo ao meu redor. Agora sim posso dizer: “O MASP? Conheço!”.


Almoçamos olhando o MASP ainda. Depois, outro museu.


mube – paulo mendes.

Juro que talvez eu preferisse não ter ido lá. Justifico-me: não pelo lugar, não pelo projeto, obviamente. Foi ótimo ver a tal pedra de concreto protendido no céu, ter estado no espaço ali embaixo. Ter observado de perto a relação do edifício com a topografia, ter acessado o museu em si – o “subsolo”. Porém, não havia gente, e as grades estavam lá. Se considerarmos que para uma obra arquitetônica ser considerada bem sucedida é necessário além de um bom projeto, que as pessoas o adotem, esse é um edifício que ganha metade de uma estrelinha. Tá, foi positivo ter visitado essa obra. O MuBE não tem culpa de sua administração. E o espaço, sem a menor dúvida, tem seu valor.

[Ih, e o MIS?]


E terça é dia de chopp em dobro. E pra fechar divertido, Geni [ou Gina? Haha].



quarta-feira 02/12


Dia de chuva em Sampa, dia de ficar encharcada.


8ª bienal internacional de arquitetura.

Primeira BIA que eu vou. Coisas legais, sim. Mas poucos trabalhos no geral. Enfim, que bom ter ido. Não só pela bienal, nem só pelo Herzog, mas pelo próprio edifício que a abriga, com suas rampas de movimento sinuoso, e todo aquele espaço (que talvez por estar tão vazio tenha parecido até maior haha). E também pelos outros prédios do conjunto, de geometria marcante de autoria de Niemeyer, e todo o Ibira.




Funhouse!

quinta-feira 03/12

Quando amanheceu, as malas já estavam ajeitadas. Era o último dia ali. O corpo já não aguentava mais muita coisa. Check-out e rua! Fomos novamente a FAU, dessa vez estava mais cheio, e tinha motivo: Herzog de novo. Aproveitamos a oportunidade. Almoço na cidade universitária ainda, depois últimas voltas pela grande cidade.


edifício harmonia 57 – triptyque.

Esse é outro edifício que parece que tem vida – e dessa vez eu não estou falando das pessoas usando intensamente o lugar. Tem vida verde nas paredes de concreto. O que é tão bruto, tão morto, se apresenta diferente ali. É um lugar que surpreende, sem dúvidas. Tem bambu, tem madeira, tem vidro, tem concreto, e vegetação. Espero o dia de voltar e ver aquele prédio todo verde.


pinacoteca do estado – original ramos de azevedo, intervenção paulo mendes da rocha.

Depois de um tempo tentando conseguir um bom ângulo, me irrito: “é muito grande! Não cabe em foto nenhuma.” Só por partes. Aliás, a meu ver, a única forma de absorver/entender o edifício é essa: por partes. Ir entrando em cada corredor, sentindo cada espaço. Foi-me impossível, nas duas vezes em que estive lá, apreender o lugar como um todo (e acredito que será sempre assim). É monumental. Eu diria, inclusive, que essa é a principal característica do prédio, antigo Liceu de Artes e Ofícios. A adaptação para Pinacoteca, realizada por Paulo Mendes no início dos anos 90, deixa bem claro o que é antigo e o que é novo. Ele busca mostrar como o edifício funciona, para isso, descasca as paredes do pátio interno, deixando à mostra a alvenaria auto-portante. A intervenção consiste em estruturas metálicas formando passarelas que interligam os níveis interiores, e um grande elevador. Também é criada uma cobertura translúcida que não toca nas paredes, enchendo o espaço de luz e permitindo ventilação. Tudo que foi colocado ali posteriormente, sob comando de P.M., pode ser retirado sem prejuízos ao que é original no edifício. É mais um exemplo de local para exposições que nos atrai tanto quanto (ou mais) que o próprio conteúdo.


E nem deu tempo de Museu da Língua Portuguesa =(


Nessa tarde visitamos ainda a Galeria Leme, e ficamos na vontade de visitar a Galeria Vermelho, ambas também do Paulo Mendes. Pegamos chuva, engarrafamento... enfim, a São Paulo dos noticiários na TV.

Pra finalizar, barzinho na Vila Madalena;

e então chega a hora de voltar, com atrasos e problemas... tchau cidade grande e cinza.. e que encanta!



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

etc


Eu que cheguei em uma cidade cinza, saí com a certeza que ela possui várias cores. É só saber olhar. Muitos lugares onde estive não constam aqui - ou porque não me lembro direito, porque não me marcaram tanto ou porque não cabe escrever sobre eles num blog de teoria e crítica da arquitetura HAHA.

Como referências, não faço uma lista. Só digo que é tudo que eu já havia estudado sobre cada obra e cada arquiteto em aulas diversas, tudo que eu já tinha lido e visto por aí em livros, revistas, fotos de outras pessoas, etc. Mas principalmente, o que eu vivenciei, ouvi e senti em cada um desses lugares. E concluo com a certeza que essa é a forma mais deliciosa de aprender arquitetura.

Fotos: minhas, e uma ou outra de coleguinhas.



Aspirantes a arquitetos + Bia Cappello no terraço do edifício Sede do IAB/SP.